Como você bem sabe, os olhos do mundo todo estavam, até então, voltados para a eleição presidencial dos Estados Unidos, cujo resultado influenciar a vida de bilhões de pessoas pelos próximos anos.

Esse resultado também influenciará profundamente o futuro do Cordel Sideral, afinal de contas, no nosso universo ficcional Donald Trump não apenas venceu a eleição de 2020, como também se reelegeu para um (sem precedentes) terceiro mandato!

Os impactos disso foram tremendos... Para começar, já parou para pensar por que, no universo do Cordel Sideral, os EUA não tomaram a dianteira da exploração espacial? Para esclarecer o que houve, precisamos falar sobre as crises originadas no complicado mês de Novembro de 2020 e ninguém melhor para isso do que uma das maiores vozes em estadunidologia do Sistema Solar.

Leia abaixo o excerto de uma entrevista realizada pela rede de notícias KNN com Álvaro Feminella, professor de Sociologia Histórica da UniFPE, em 23 de Março de 2243 (retirada dos arquivos históricos de Jam-Macaru, andar 14, seção L-15).


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Trump cumpre promessa de campanha e fecha fronteiras dos EUA em seu terceiro mandato

ENTREVISTADORA — …podemos dizer, com base no que o senhor afirmou, que o colapso do dólar como moeda-padrão da economia mundial, por volta da metade do século XXI, acelerou o processo de isolamento dos EUA?

FEMINELLA — A gente precisa voltar um pouco mais no tempo. O colapso da moeda foi, sim, uma causa importante, mas não dá pra esquecer que a busca por explicações externas… por responsáveis externos… pela crise econômica estadunidense foi o verdadeiro motor dos acontecimentos. Repare que, já no longínquo ano de 2018 — pelo que mostram os registros históricos que sobreviveram — você já vê sinais de que o isolamento da equivocadamente denominada “América” já estava em andamento. E isso só se acentuou nos anos seguintes, até que 2025 chegou. Foi nesse cenário que se cumpriu a promessa — inicialmente vazia — feita por Donald Trump na eleição realizada um ano antes e fecharam-se as fronteiras internacionais dos EUA.

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ENTREVISTADORA — O senhor acredita que foi apenas uma promessa vazia, mesmo tendo sido um dos pilares da campanha do presidente Trump em busca de seu terceiro mandato consecutivo? Lembrando que, como parte da promessa, Trump declarou múltiplas vezes que planejava implementar mudanças nas leis de imigração tão logo quanto possível…

FEMINELLA — Tão logo quanto possível, sim. Não tenho dúvidas de que fosse algo que seu governo realmente planejava fazer, mas não na intensidade que se viu. Do dia para a noite, apoiado por uma série de dispositivos legais aprovados nos seus dois primeiros mandatos, o presidente interrompeu todo e qualquer tipo de comércio com o mundo exterior. E motivado pelo quê, exatamente? Essa é a pergunta que se fizeram na época e que não conseguimos responder até hoje… Pareceu puro capricho, uma vontade de mostrar que o destino dos EUA estava de fato em suas mãos, como repetia desde sua questionável reeleição no ano de 2020.

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ENTREVISTADORA — Qual foi o impacto dessa mudança na crise econômica pela qual o país passava?

FEMINELLA — Era de se esperar que o fechamento das fronteiras agravasse a crise e, de fato, foi o que aconteceu no começo, mas crise é questão de narrativa, não é? Se o governo te diz que não existe uma, seu estômago vazio pode até discordar, mas, com o tempo, a mente compra qualquer ideia… e a aparente recuperação da economia estadunidense nos anos que se seguiram o fechamento das bordas fortaleceu a versão oficial.

ENTREVISTADORA — E levou o povo a acreditar que o problema era, de fato, culpa dos demais países, dos quais tinham se isolado…

FEMINELLA — Exato. Com o fechamento das fronteiras, fortaleceu-se ainda mais a doutrina do “nós contra eles”. Seja lá quem fossem “eles”… O entendimento do que era o mundo mudou e, com isso, o próprio entendimento da verdade mudou… Ninguém discutia que só havia mais comida nas mesas estadunidenses por causa do acentuado êxodo populacional, protagonizado pelos inconformados que fugiam do país, escapando pelas fronteiras ainda não tão policiadas. Pouco se discutia que os surtos de varíola, sarampo e rubéola — frutos das campanhas de desinformação antivacinação —, responsáveis por matar milhões, eram diretamente responsáveis pela sensação de fartura, de abundância de postos de trabalho… Menos gente para comer, mais comida na mesa, certo? O recrudescimento da tecnologia impactou diretamente essa percepção, também. Com a proibição do 5G e da Internet sem fio, por volta de 2032, as informações deixaram de circular tão livremente… O controle da narrativa se concentrou ainda mais nas mãos das elites políticas e econômicas.

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ENTREVISTADORA — O senhor poderia falar um pouco mais sobre o papel que os Estados Reunidos desempenharam nessa época?

FEMINELLA — Bem, eles tentaram desempenhar um papel… mas não havia muito a ser feito. Os EUA eram uma nação soberana, os atos de seu Governo Federal foram todos respaldados pela Constituição e, em certa medida, pelo apoio popular… Os Estados Reunidos da América (ERA) acabaram se tornando uma nação forte fora da América do Norte, um estado paralelo que acolheu os exilados do seu país de origem, se consolidou e se transformou, inserindo-se de forma respeitosa em um contexto pancultural global. Mas foi só isso. Acabaram conquistando um papel relevante, embora não proeminente, na era das explorações espaciais, mas nunca conseguiram progredir com suas pautas em relação aos EUA. Com o tempo e a eventual mudança de foco das nações mundo afora, com o renovado olhar para as estrelas, essa pautas originais foram sendo postas de lado pelos ERA…

ENTREVISTADORA — Ainda há quem questione o fato de os EUA serem uma das únicas nações da Terra que não estiveram inseridas de nenhuma forma na exploração espacial. Ou melhor dizendo… Que, até os dias de hoje, eles sequer saibam que a humanidade habita o Espaço, colonizou luas, terraformou planetas… O senhor acredita que a ONU deveria enviar uma missão até o território estadunidense para informá-los dos últimos avanços da humanidade?

FEMINELLA — Perceba bem o que você está dizendo… Os EUA estão isolados do mundo há mais de duzentos anos. Nem satélites têm mais! Cortaram todas as comunicações, não enviam agentes para fora do seu território, não recebem estrangeiros… Sua tecnologia e modo de vida permanecem os mesmos dos nossos antepassados do século XXI, talvez até mesmo de épocas anteriores. Qualquer tentativa da ONU de informá-los sobre os avanços tecnológicos dos últimos séculos seria encarada, no melhor dos cenários, como bruxaria. Asimov falava que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. É isso o que seríamos para o povo primitivo dos EUA: feiticeiros, enganadores… Não vale a pena. É só revisitar os relatos da tentativa acontecida em 2101… O desastre que foi aquilo! Não acredito que ninguém queira passar por uma crise nuclear de novo.

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ENTREVISTADORA — Então, tentativas de reunificar a humanidade não valem a pena, em sua opinião?

FEMINELLA — E ela não está unificada? Está, sim, do meu ponto de vista. Os que se reconhecem como iguais andam juntos. Aos que se dizem ou se diziam diferentes, mais dignos, apartados… Bem, a esses não me interessa propor união, apenas respeitar sua individualidade. Se, em sua húbris, essa autoimportância lhes destinar um lugar na História onde coabitam com a mentira, os faltos alternativos e uma versão idealizada do passado, quem sou eu para propor a eles que encarem a realidade do presente? Às vezes, tudo o que o pensamento conservador precisa é ser mantido longe do caminho do progresso. Não temos tempo a perder.

Corte brusco. Restante do arquivo danificado. Por favor, tente repará-lo…